oreinabarriga

este blogue está protegido pelos direitos de autor © todos os direitos reservados ao autor designado como carmina burana. a cópia não autorizada de conteúdos de propriedade intelectual e criativa protegidos pelos direitos de autor é ilícita e pode fazê-lo incorrer a si em processos civis e criminais ao abrigo da lei 16/2008 de 1 de abril.







este blogue tem Livro de Exclamações

16.3.08

Guimarães à noite

O Centro Histórico de Guimarães é Património Mundial da UNESCO

Praça da Oliveira


A Praça da Oliveira ou o Largo da Oliveira faz fronteira com a Praça de Santiago. A Praça da Oliveira era a parte rica da cidade onde viviam os nobres, a Praça de Santiago era a parte pobre, nem os pobres passavam de Santiago para a Oliveira nem os ricos passavam Oliveira e pisavam o chão de Santiago.

Aqui nasceu Portugal

Estátua de D. Afonso Henriques

Onde se lê: "Aqui nasceu Portugal" é parte da muralha do Castelo de Guimarães.





O Castelo de Guimarães foi mandado edificar pela Condessa Mumadona Dias no Século X. Chamou-lhe então Castelo de São Mamede e com a criação desta fortaleza pretendeu proteger-se da sua condição de viúva e aos seis filhos, bem como das invasões dos Normandos (homens do Norte - antigo povo de navegadores e guerreiros, atacavam por terra e por mar usando técnicas upa, upa, vinham da Escandinávia, atendiam pelo nome de Vikings) e Muçulmanos. Passados 100 anos o conde D. Henrique, na posse do Condado Portucalense escolheu este castelo para se instalar e à sua corte. Mandou ampliar os muros e abrir mais duas portas: a principal, a oeste, que vigiava o burgo, e a de leste, chamada a porta da Traição.
Em 1127, quando Afonso VII rei de Leão, tentou exigir de D. Afonso Henriques vassalagem (obediência, submissão) deu-se o Cerco de Guimarães. Egas Moniz, vendo a vila em situação de desespero, garantiu ao rei a vassalagem do seu amo. O cerco foi levantado mas o príncipe português não cumpriu o prometido pelo seu aio e este foi com a sua família até ao reino de Leão, de corda ao pescoço, oferecendo as suas vidas em resgate da palavra dada. Em 1128, D. Afonso Henriques luta contra a su aprópria mãe D. Teresa na Batalha de São Mamede, tendo a vitória de D. Afonso Henriques dado início à Fundação de Portugal.

Castelo de Guimarães

Umas das fotografias que guardo dos meus tempos e passeios de criança, para a qual olho com um sorriso terno, e grato, é uma em que estou com uns calções cor de rosa pelo joelho vestidos e sentada na muralha do Castelo de Guimarães com a mão em geito de pala a fazer continencia ao sol. Foi o meu pai que tirou essa foto como tantas outras para onde eu olho com um sorriso terno, terno e grato porque reconheço que tive uma infância cheia de palácios e de castelos, jardins sumptuosos, museus por onde entrava e saía cheia de relíquias que fui guardando nos bolsos da imaginação.
Passeei tanto com os meus em pequenina e é de pequenina que se enchem os bolsos da imaginação, castelo a castelo, palácio a palácio.Este fim de semana regressei ao berço de Portugal passados 30 anos. Do Hotel, tinhamos acabado de chegar, de pousar as malas, liguei para ouvir a voz do meu filho e ele disse-me assim: - Estou no Palácio!
- Qual palácio filho?
- No Palácio de Queluche.
Disse a minha mãe que tinham passado toda a manhã dentro do Palácio, agora estavam a passear nos jardins tal como eu em pequena, passeava com eles, de fatinho azul escuro xadrez, camisa branca com folhinhos toda pinoca, uma boneca de trapos nos braços e um laçarote vermelho nos cabelos, aposto que o meu pai tirou uma foto em frente à mesma fonte e uma outra em frente à mesma escadaria, apenas substituiu a figura na fotografia.
De um lado o meu filho, pequenino, a visitar o palácio de Queluz, do outro lado eu, 30 anos depois a quase 400 quilómetros de distância a visitar o Castelo de Guimarães e os meus pais por todos os lados, a espalhar sementes de ternura.

15.3.08

Depois conto como foi

Amanhã, Domingo vou ao Nuorte! Gerês, Guimarães (ver o estádio do Vitória, perdão, ver o Castelo, eu vou é ver o Castelo eu bola nem gosto).
O nosso pequenino fica com a avó Ana e o vô João que são quatro horas de viagem para cada lado e não deve ser coisa que o Miguel aprecie, ir ver o Estádio do Vitó, desculpem, enganei-me outra vez, ver o Castelo! O Castelo de Guimarães assim é que é! Eu depois conto como foi. Depois da despedida (da Paula) estou a precisar de apanhar ar (do Norte).

14.3.08

Adeus mana


De madrugada veio um anjo buscá-la. Um anjo que teve pena de a ver assim tão doce, tão fraca, cansada do pesado fardo e levou-a enquanto dormia. Acho que ela nem deve ter dado pelo anjo, sentido aquela aragem morna (os anjos devem fazer uma leve aragem morna quando descem sobre e nós ou se levantam).
Foi Deus que a condenou à má sorte ou foi Deus que enviou um anjo? Para não ficar de mal com Deus, acredito que Ele não nos condena, tem antes piedade de nós e mandará buscar-nos assim que puder.
Eu tentei dezenas de vezes e não fui capaz de escrever um Post sobre Glioblastoma Grau IV, hoje apaguei definitivamente todos os rascunhos que tinha guardados, Post's com pesquisas sobre o tumor e alguns testemunhos que encontrei na net, escrevi sobre o Tb. Começava a escrever sobre a nossa mana mas quando dava por mim eram Tês atrás de Tês e não sei se tenho esse direito. Apaguei tudo. Escrevi-os aflita, espantei-os aliviada.
Coube-me o lugar ao lado de uma menina tão parecida com a nossa mana. Não sei se foi de propósito, nem sequer foi mau, mas quando olhava para ela de perfil (sentada na cadeira ao meu lado, na mesa do restaurante do Hotel) apanhava um susto breve, como aquela descarga que fazem as tomadas eléctricas dos telefones, aquilo não é um choque nem é nada, é um aviso, retraímos-nos pelo sim pelo não, é uma tomada de atenção, recolhemos logo a mão, defendemos-nos. Pelo sim pelo não quando olhava para ela era por pouco tempo e as minhas mãos, sobretudo a esquerda evitavam ir buscar a travessa ou a jarra do vinho sem precauções. Nem sequer foi mau, mas se eu me queria distrair e não ter nenhuma saudade de quem não conheci, tinha que tomar as devidas providências.
As bochechas e a boca eram iguais. Não sei se eram iguais. O nariz quase não se notava. Para mim eram iguais.
Emocionei-me quando olhei para a foto da nossa mana em cima de uma mesinha improvisada, em cima de um paninho limpo, ao lado uma cesta com rebuçados que sabiam a ervas daninhas. Vi uma mãe como eu naquela foto de epitáfio ainda com as cores apesar da má qualidade da impressão.
Uma vez escrevi que o medo que tenho de morrer é por não ter ainda reunido a quantidade de pessoas suficientes que me chorem. A nossa mana reuniu mais que a conta necessária.
Havia alguém, uma velha, muito velha por dentro da cabeça, que levantava e pousava o véu, descobria e tapava-lhe a cara a toda a vez e hora e eu para os meus botões, cada vez que ela fazia aquilo, eu resmungava: Deixa-a em paz velha, deixa-a descansar em paz. Havia um pai que rondava a filha já depois do anjo a ter levado como um cão que protege o seu dono caído no chão, andando à roda dele, com as quatro patas (o pai também andava à roda dela com as quatro patas no chão) até chegar ajuda. Havia a minha querida Alice que se assemelhava dia para dia a uma Santa, linda e triste, quieta em cima de uma nuvem (como estão quase todas as Santas postas nos altares, estão em cima de uma nuvem), quieta para não cair. Eu e o Vítor andávamos de volta dela como pardais como se ela estivesse presa por um fio e nós a segurar no fio, pelo bico. Havia um Padre, já de uma certa idade, com um discurso também ele já de uma certa idade que evocava passagens da Bíblia que em nada aliviam (tirando a parte do pai nosso que parece que alivia alguma coisa).
Não tardará o dia em que a Filipa perguntará ao pai, aos tios, à professora da Escola porque é que os outros meninos e meninas têm mãe e ela não tem. Porque eu?
Porque a Filipa? Porquê a nossa mana e não nós? Porque não adoecem e caem os mais velhos primeiro, parece que não custa tanto... Porque é que isto acontecesse às pessoas boas?
Eu posso provar. Isto só acontece às pessoas boas e eu posso provar.
"Vive cada dia como se fosses morrer amanhã" e sente o alívio que é, esta sensação de paz. Pronto já passou. Como as nossas mães diziam para os nossos joelhos esfolados: Pronto, já passou.
Adeus querida mana, mãe como nós, minha heroína que eu tanto admirei e respeitei por tudo aquilo que conseguiste na vida e por tudo aquilo por que passas-te. Não foste fraca nem pequena, foste forte e mais alta como os poetas e passas-te por cima dos que chamam coitados aos valentes cheios de glórias que os outros nem aspiram tão pouco. Que Deus te Guarde, descansa em paz finalmente, para sempre.

13.3.08

sessão contínua

Os casamentos são uma sessão contínua, uma longa metragem sem intervalo. Enquanto que nós no cinema aproveitamos o intervalo para ir à casinha de banho, no casamento não há intervalo, não podemos sair da sala para ir ao casamento do lado num instantinho. É obra.

Boa eu?

Boa eu? A escrever?

Ó minha querida dinapinto@ tal e tal... eu sou é muito má a fazer contas! Nem calcula!

Olá!

Alguma coisa há-de resultar! Se não for o Post anterior é a Luana Piovani.

Logo

Logo quando chegar a casa vou fazer esparguete com esparguete para te agradar

Não vou desatar a abrir as torneiras todas da casa, só o estritamente necessário e deixo correr poucochinha.

O mesmo farei com as lâmpadas, só ligarei as económicas e por pouco tempo e não me esquecerei de nenhuma ligada

Antes de por a máquina a lavar pergunto-te se tens roupa preta suja

Depois encho a máquina até não caber um alfinete

Antes de sacudir os tapetes na janela do escritório vou certificar-me que fechei a janela do nosso quarto

Vou tomar banho em 5 minutos! Com um nadinha de gel de banho (tamanho de uma ervilha), amaciador na mesma medida e não mexo no teu sabonete.

Logo fazemos chexo

Prometo que depois não adormeço a ler e apago cedo a luz da mesinha de cabeceira

Vou ligar o desumidificador

Antes de ir buscar o menino vou por ar nos pneus





(Shiu, não digam nada, não façam alarido, este Post é inteiramente dedicado ao meu gajo, ao meu cônjuge, ao sujeito passivo A da minha declaração de IRS, ao meu querido marido. É que ele passa pelo meu blogue a correr, só para dizer que veio cá, ele a ler este blogue é assim, mão no rato, rato na barra lateral e depois anda com a barra para baixo a grande velocidade e diz assim:

- Escreves tanto. (como quem diz, a minha vida não é isto)

Já Rita faz a mesma coisa e diz assim:

- Não, esse Post por acaso não li, era muito grande.

Mas da Rita trato depois, primeiro os da casa. De modo que espero que isto resulte. Tenho a certeza que quando ele começar a ler isto que escrevi vai largar a barrita lateral e ler com atenção. A ver...)

Mestre Foury

A minha caixa do correio é a divisão mais povoada da minha casa. Ele é a colecção Outono Inverno/ Primavera Verão da Quelle da La Redoute da Vertbaudet, 3 Suisses, agora há uma nova para gordinhas e uma outra de inutilidades, é publicidade da Reader’s Digest que não presta para nada nem para forrar o caixote do gato porque metem lá dentro agarrado aos papéis chaves do carro e moedas e fichas, se o bichano engole uma coisa daquelas tenho que ir consultar a Dica da Semana que está em baixo da fritadeira dentro do forno a fazer de papel mata-borrão e achar a secção “Como desentupir um gato” para resolver o problema, depois é as facturas, os extractos do banco, a professora licenciada que dá explicações, o Sr. Rodrigues das marquises, que também arranja o aquecimento central, o ar condicionado, pichelaria geral, redes de gás, vai a casa, faz orçamentos grátis, a engomadoria que abriu no quarteirão, a sex-shop, os panfletos das agências de viagens que fazem demonstrações de produtos (Colchões e serviços de loiça), também tenho lá o guia das compras do Continente, do Jumbo, do Feira-Nova da Grula, do Zé Manel do Talho, mas ontem, ontem para além de ter tudo isto e mais um par de meias que me caíram do estendal, tinha um papelinho singelo, ligeiramente rectangular, com umas luas e umas estrelinhas a bordar os cantos e cuja matéria logo me despertou o interesse: Você sofre de um problema urgente para resolver? Contacte Mestre Foury célebre Vidente . Médium (deve haver os elevados, os bons, mas esses devem levar mais caro) Telefone 212 447 485 – Telem. 968 445 178 e passo a descrever o conteúdo porque vos quero bem, quero sinceramente ver resolvidos todos os vossos problemas assim como os meus:
Com os seus resultados, adquiriu uma grande reputação.
Ora eu com os meus resultados apenas adquiri alguma reputação. E não é das melhores. De modo que logo para começar já valia a pena o custo da chamada.
Especialista em volta imediata da pessoa amada.
Bom, para isto não preciso da reputação do mestre, basta-me ligar para a Alves Ribeiro S.A., a telefonista de lá atende eu digo que sou a esposa e ela manda chamar o meu marido: - Querido vem já para casa que o assunto é pertinente. Já para trazer de volta imediata uma grande paixão isso já precisava do mestre para distrair o meu marido enquanto eu fazia a manobra.
Se o seu marido, esposa, namorado ou namorada vai com outro? Ele consegue os trazer de volta num prazo de 4 dias e voltará para sempre, ora aqui é que o mestre se revela de facto bom, não sei se é por modéstia que se apelida de médium, é de facto muito bom se conseguir fazer o trabalho em 4 dias porque 4 dias dá para ir tratar do passaporte, fazer as malas, a reserva e dar de frosques porque não é todos os dias que o nosso marido vai com outra e normalmente voltam no mesmo dia, ou seja, continua a haver roupa para lavar, jantar para fazer, peúgas para apanhar do chão e debaixo da cama, cabelos para recolher do lavatório e espuma da barba, de modo que se tivermos tempo e com a ajuda do mestre, quando eles voltarem já estamos longe. É bem feita. Também ajudo para exames (exames é contigo me'na Célia), sorte, emprego (isto é comigo, preciso urgentemente que o mestre me conserte a segurança social), amor, melhoria financeira, casamento, comércio, carta de condução (Zé Filipe, apontas-te o número do mestre não apontas-te?) problemas familiares e protecção.
Trabalhos garantidos de sucesso na mesma semana. Consultas todos os dias
(não é como na caixa que as consultas são trimestrais). Facilidades de pagamento.

Av. General Humberto Delgado N.º 27 – 2º Esq. BELAS e ainda informa dos autocarros! 112 que é o que vai de Belas, da Avenida General Humberto Delgado à estação de Oeiras o 131 que vai da Estação de Queluz/ Massamá para a circulação (é o que está escrito no site da vimeca) o 179 que vai da Estação Queluz/ Belas para a Venda Seca e o 215 (que de acordo com o mesmo site não vai para lado nenhum e no site da carris também não o vejo)
Ainda bem que eu não aderi aos autocolantes amarelos: Publicidade aqui não! Ainda bem. Por esta altura estava este papelinho da sorte a bater à porta, que é como quem diz, na caixa de correio do vizinho e não é que eu não queira bem ao vizinho, mas francamente, já estava um bocadinho farta da sorte me bater à porta sempre que eu não estou em casa.

O Jogo do Contrário

O Jogo do contrário é para meninos envergonhados.
Eu por alturas da primária, sabia a resposta às perguntas da Senhora Professora Pilar mas nunca punha o dedo no ar. Era envergonhada por demais.
Ao Miguel perguntávamos:
- Que animal é este filho? Que cor é esta?
E ele encolhia-se como o bichinho de contas e nunca punha o dedo no ar. Foi então que inventamos o jogo do contra:
- Que animal é este filho?
- ...
-Ah, já sei, é um porco!
- Naaaaaa.... Isso é uma vaca!
- Boa filho e esta girafa é azul não é?
- Naaaaa... essa giáfa é côi lalanja!
- Ah pois é, é cor-de-laranja
- A mãe enganou-se.
O avozinho João abre um livrinho cuja história o Miguel já conhece bem e pelo meio troca o nome aos animais e às coisas e o Miguel desta forma prontamente corrige e interage.
- ... As moscas fazem o mel...
- Não é as môcas ! É as abeias!
- Ah pois é, as abelhas fazem o mel e veio o cão e fez miau, miau...
- Não fez nada miau, o cão fazê Áu, Áu, não fazê miau, quem fazê miáu é o gato!
- ... A clementina está a brincar no...
- Essa não é a Clementina, a Clementina é a amiga do Ruca
- Então quem é? É a Minnie?
- Nãããão, essa é a Vitóia Plum.
O Jogo do contrário também serve para resolver outros problemas, como o problema da sopa de feijão, de Grão, de couve e outras coisas que costumam boiar nas sopas e que os miúdos cospem como espinhas.
- Não quéo feijão!
- Isto não é feijão calha bem, é bolinhas de chocolate
- Hum... é bom
- É bom mas o Miguel só pode comer mais dois feijões de chocolate! Faz mal à barriga.
- Só dois? Dá todos mãe! (isto de a gente dizer que só pode comer um ou dois e que faz mal à barriga é limpinho, é da maneira que eles querem logo abusar)
- O que é ito? Acho que o Miéu não gota.
(É grão, ou ervilhas ou favas)
- É bolinhas da Téteia filho. (smarties)
- Deixa prová. Hum... é delicioso, posso comer todas?

12.3.08

Eu e a vida falamos (explicação)

Eu e a vida falamos por meio de Figuras de Estilo. Quando eu tinha a idade do meu filho (só tenho um, gostava de ter pelo menos mais um filho, só para poder dizer assim: o meu mai novo. Em vez de: Quando eu tinha a idade do meu filho, não, dizia assim: Quando eu tinha a idade do meu mai novo) falava através de ondas de rádio. Eu não me lembro, a minha mãe é que conta isto, que eu fazia muito ruido, de modo que creio que era por meio de ondas de rádio. Eu e a vida, hoje em dia, falamos por meio de Figuras de Estilo. Ninguém deve ter dado por isso mas eu estive a falar com a vida. Ao mesmo tempo que falo convosco estou a falar com ela, não é a dispersão que é uma figura de estilo, não, eu posso muito bem estar aqui a falar convosco, com o boneco (que é o mais certo) e ainda com os meus botões, a figura de estilo está na anáfora. Quantas vezes repeti a mesma frase? Contaram? Lá está. Estava a falar com a vida, por meio de anáforas. Também falo muito com ela pela via das metáforas, aliás, a minha fronteira entre o mundo real e o imaginário é uma fronteira aberta, uma espécie de espaço Schengen, onde circulam livremente, a lógica e a intuição. Já a vida quando fala comigo utiliza muito as comparações, hoje por exemplo olhei de manhã para o céu, o céu estava cheio de nuvens, uma parecia o Gato das Botas, outra um barco, uma outra mais distante era parecida com o boneco da Michelin, estão a ver? É assim que a vida fala comigo. Eu respondi-lhe com ironia (que é outra figura de estilo, caso não saibam e pensem que ironia é ironia e não é uma figura de estilo, porque é), respondi-lhe: - Com essas nuvens estás mas é a querer chover. Quando a vida e eu nos pomos na galhofa, a fumar um cigarrinho, a contar piadas e a beber um copo, dá-se uma alegoria, ou seja, uma sucessão de comparações, de metáforas, de imagens, uma coisa semelhante a ... fogo de artifício?
A minha mãe fala comigo por antítese. É verdade. Se eu lhe perguntar: - Ó mãe, fizes-te sopa para eu levar? Ela responde: - Fiz e não fiz (que é como quem diz, fiz mas é d' ontem)
A minha mãe fala comigo por antítese e com toda a gente, se a vizinha lhe perguntar: - Então Dona Ana está boazinha? A minha mãe responde: - Estou e não estou (que é como quem diz, estou bem da perna, doí-me um dente.)
Eu e a vida por acaso antítese não usamos muito... Para a vida perceber por exemplo que só trabalho na Escola desde Novembro de 2003, ainda não posso pedir a aposentação, mas às vezes estou farta daquilo e que casei muito antes disso (e não posso pedir o divórcio por causa das tralhas que estão para lá na arrecadação, cada vez que olho para aquilo penso se eu me separo tenho que fazer uma limpeza a isto, os discos de vinil são meus, as pastilhas suplentes para os travões são tuas, o melhor é estar quieta) e às vezes já estou farta, digo-lhe assim: - Estou aqui há séculos nesta escola! Parecem séculos os anos que estou casada! -Para a vida perceber isto, por exemplo, recorro à hipérbole. Ou seja, exagero um bocado.
A vida fala que se farta e quando fala pela via da personificação, quase sempre é para me lixar. E eu amuo. A vida já foi capaz de me por as pernas a tremer que nem varas verdes, ou seja personificou as varas e estragou-me o encontro com o Paulo Pires, aquele momento em que eu me aproximava dele e e dizia: - Paulo, tu és um bom actor, mas o que eu aprecio mesmo em ti... não tivesse eu ficado com as pernas a tremer que nem varas verdes e o coração a bater como um cavalo (outra personificação desnecessária).
É certo que a vida nem sempre se ri ou fala para mim (agora fora de animismos que esta agora do ri e do fala foi sem intenção) se ela me prejudica, me magoa, amuo e quando me leva alguém que amo, grito que não lhe perdoo, que nunca mais lhe perdoo! Mas depois ela vem com eufemismos, do género: - Ninguém morreu, ele foi mas foi para o céu e agora é mais um Anjo-da-guarda que tens. E eu, que não sou capaz de amuar por mais que três dias consecutivos com a minha mãe, com ninguém, muito menos com a vida e porque para suportar viver, depois de uma coisas destas por exemplo, tenho que tomar os eufemismos todos da caixa, deixo que ela (a vida) me abrace e acabamos por fazer as pazes.

E como é que se amua com a vida?

Amuando. Deixamos de lhe falar.
Eu cá deixo de lhe falar. Tem alturas que amuo por três dias. Consecutivos. Ali. Ela que venha falar comigo. Fazer as pazes. É verdade. Chego a estar três dias sem falar à vida. Eu explico melhor no Post seguinte (se me apetecer), agora vou fazer o jantar, mesmo que não tivesse o jantar para fazer não podia explicar melhor porque é uma coisa que leva tempo e acabei de receber uma mensagem do Blogger, vão desligar isto, para fazer manutenção, ora vejam :
Blogger Status
Wednesday, March 12, 2008
Blogger will be unavailable Wednesday (3/12) at 7:00PM PDT for about 10 minutes for maintenance.
Posted by John at 11:37 PDT

A Revolta

Revoltam-me a cobardia e as injustiças.
O resto, são pequenos amuos que tenho com a vida.

Não filho!

Não te afastes da mãe filho, olha a estrada, cuidado com os carros, alguém te pode levar.

Não atravesses fora da passadeira

Numa passagem de nível com ou sem guarda, pára, escuta e olha. Em segurança atravessa rápido e tem cuidado onde pões os pés.

Não andes nunca sozinho ou com os teus amigos por ruas desertas ou descampados, mesmo que seja mais perto.

Nunca entres num automóvel que não conheces filho, seja o que for que te peçam: uma informação,

seja o que for que te digam: que são amigos da mãe,

seja o que for que te ofereçam: aquilo que mais gostavas de ter.

Não aceites nada, mesmo nada que te ofereça um desconhecido, nada ele te pode dar que a mãe não possa: rebuçados, pastilhas elásticas, tabaco, tudo o que quiseres experimentar a mãe experimenta contigo, assim é seguro, afasta-te de desconhecidos. Eles podem aliciar-te com uma guloseima ou uma droga qualquer e tirarem-te para sempre da mãe!

Se te quizerem levar, grita filho, grita o mais alto que puderes e tenta fugir!


Fala, comunica, nunca te cales, nuncas escondas nada, fala com a mãe, o pai, os avós, com a Polícia, com os teus professores, com as senhoras auxiliares da escola, qualquer perigo ou anomalia de que tenhas conhecimento ou de que tenhas sido vítima. Não tenhas vergonha de nada, nem medo. Quem tem que ter vergonha e medo é quem porventura, te fez mal. Se a vítima for um amiguinho ou uma amiguinha, procede da mesma maneira.

Se estiveres só em casa não abras a porta a ninguém. A ninguém filho (bom, a não ser que o pai ou a mãe se tenham esquecido da chave). Se estiveres em casa sozinho e baterem na porta, nunca digas que não está mais ninguém em casa.

Evita a companhia de grupos de jovens (colegas ou não) que possam levar-te a cometer delitos (droga, actos de vandalismo, etc.). Lembra-te disto filho: Nunca faças nada que decepcione a mãe e serás um homem digno.

Tem cuidado e não brinques com objectos estranhos que encontrares abandonados pois podem ser perigosos (bombas, granadas, etc.). Muitos meninos já sofreram ferimentos graves, ficaram sem mãos por ter brincado com objectos aparentemente inofensivos ou aliciados pelos amigos e pelos colegas aos quais é sempre difícil dizer que não, não é filho? Mas dizer Não é preciso. Só tu sabes aquilo que te apetece fazer. "Não sei para onde vou, sei que não vou por aí."

Se te perderes não te afastes do lugar e não vás com ninguém sob nenhum pretexto, será mais fácil a tua localização. Tenta decorar a tua morada e o telefone da mãe e do pai.

Não forneças nunca informações sobre nós, da nossa casa a pessoas desconhecidas.

Evita provar drogas por curiosidade ou porque os teus amigos ou colegas o fazem. Essa primeira vez pode arrastar-te irremediavelmente para um drama que te envolve a ti, a tua família inteira e os teus amigos de verdade. Há tantas coisas para experimentar filho. Não queiras experimentar o que nos fará chorar todos os dias e que muitas vezes não tem remédio.

Não mexas em fósforos nem noutros materiais que possam provocar incêndios.

Diz sempre à mãe ou a quem estiver contigo para onde e com quem vais brincar. Com quem vais sair, com quem vais dormir, não há ninguém que respeite mais a tua liberdade e a tua privacidade que a mãe e o pai, só precisamos de saber onde estás, com quem estás para o caso de acontecer alguma coisa.

Não brinques com armas de fogo, mesmo que penses que estão descarregadas.
A nossa arma, filho, são as nossas escolhas. Ás vezes escolher pode ser ter que tomar uma decisão tão rapidamente como puxar o gatilho de uma arma. Uma escolha mal feita, como um tiro numa brincadeira inocente, podem atingir alguém, sem querer, podem atingir-nos a nós. Gravemente.
(Pelo sim pelo não, pelo seguro, confiando que terás mais coisas interessantes para ler que o blogue da mãe, especificamente este Post, assim que tiveres tamanho suficiente a mamã vai inscrever-te nas artes marciais. Está decidido.)

O cogumelo mágico

"COGUMELOS MÁGICOS" (Magic mushrooms) igualmente conhecidos por "COGUMELOS PSILOSIBOS" (Psilocybe mushrooms).
Esta variedade de cogumelos contém uma substância alucinogénica de nome Psilocibina que consta na Tabela II-A do Decreto-lei 15/93 de 22 de Janeiro (Lei da Droga).
Estes cogumelos apresentam-se normalmente sobre a forma seca (inteiros ou fatiados), de cor castanha, e a forma mais frequente de serem consumidos é a via oral (mascados) ou, mais raramente, na forma fumada.
A substância Psilocibina, cujos efeitos perduram entre 6 a 8 horas no corpo humano, actua como perturbadora do sistema nervoso central, provocando graves alterações na percepção da realidade (distorção do espaço, do movimento, das cores e dos cheiros), provocando enjoos, desconforto, insegurança e até pânico."

Mudam-se os tempos mudam-se as alucinações

Andei eu a reler o artigo das drogas da K para estar a par, aquele que li aos 17 anos e aprendi tudo sobre drogas sem me picar, tenho um filho, já se sabe, gosto de saber tudo, estar a par, já que nunca provei nem estou para aí virada, leio sobre, para saber como cheira, como sabe, como se faz, que "moca" dá, que danos provoca, sensações, quanto custa, onde se vai buscar, que pena se apanha, enfim, tudo, uma espécie de licenciatura em três tempos, só que ao contrário dos recém licenciados deste País, estou ansiosamente à espera de nunca precisar dos conhecimentos adquiridos para espetar com duas ou três advertências ao meu filho, estava eu a dizer, andei eu a reler o artigo das drogas da K e agora vem-me o cogumelo. Não é da "compal", não é laminado, não é fresco nem de conserva, é o "cogumelo mágico". Poça.
Antes:
- Ai Jorge! Se te apanho a fumar um charro ou a fazer uma chinesa outra vez levas uma galheta! E não te livras de eu contar tudo ao teu pai hein?

Depois:
- Ai Jorge! O teu pai que não te veja outra vez com a moca do Magic mushrooms!

Carjacking

O Carjacking é o crime da moda. Até o nome que lhe puseram é moderno. Apesar de ser bastante divulgado pelos órgãos de comunicação social, apesar de todos conhecermos alguém que já foi vitima deste crime, ou da tentativa, encontro ainda por muitas vezes, mamãs que vão ao multibanco e deixam o bebé na cadeirinha do carro, no banco de trás, mamãs e papás que estacionam em segunda fila para irem num rápido à farmácia... Nunca sabemos o tempo que demoramos a voltar para os nossos filhos quando os deixamos. Nunca.
Certa vez dei a minha senha a uma senhora que estava muito aflita na caixa Geral de Depósitos porque estava no meio de uma fila enorme, estava muito demorado o atendimento e ela tinha deixado uma filha bebé no berço, em casa a dormir. Contagiou-me de aflição aquela mulher.

- Eu fiz isto porque não ia demorar nada, moro já ali, era vir aqui num instante tratar deste assunto e voltar. Eram 10 minutos, se tanto, nunca pensei que isto estivesse tão demorado...

- Como é que pode ter saído de casa a pensar isso? Como é que sabe que são só dez minutos mesmo que não houvesse fila, já pensou que pode ser atropelada ali naquela passadeira? E não voltar a casa em 10 minutos, voltar ao fim do dia, não voltar e ninguém sabe que a su amneina está a dormir no berço? Pode acontecer tanta coisa! 100 ou 200 metros parece-lhe uma curta distância mas a verdade é que se ela chorar, gritar, a senhora não a ouve!

- Cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. - Disse a Senhora da senha anterior que também esperava.
Fui ao site da PJ onde podemos consultar o "modus operandi" deste crime. Aqui vão alguns comportamentos que devemos adoptar. Ser moderno é estar à frente. Seremos capazes de ser ainda mais modernos, estar ainda mais à frente que os criminosos que praticam o carjacking? Espero que sim...


- Circule sempre com as portas trancadas e os vidros subidos

- Se tentarem forçar a entrada, buzine insistentemente, faça sinais de luzes

- Se sofrer um embate na traseira do seu carro não pare, vá até à esquadra mais próxima, faça queixa baseada no maior número de elementos que tiver conseguido arquivar na cabeça, a matricula, a cor do carro, se era um condutor homem ou mulher...

- Já lá vai o tempo em que as paragens nos sinais vermelhos e passadeiras podiam ser aproveitados para acender um cigarro, mudar de estação de rádio, procurar os lenços de papel, trocar de óculos. Esteja sempre atento quando pára nos sinais e nas passadeiras.

- Quando se dirigir para o carro, leve as chaves já na mão, não ande à procura delas nos bolsos ou dentro da mala porque não o fez antes, o mesmo serve para as chaves de casa.

- Deixaria uma barra de ouro à vista dentro do carro nem que por 1 minuto enquanto vai à farmácia? Um molho de notas? Um colar valioso? Não deixe uma criança no carro sozinha. Nunca em nenhuma circunstância.

- Não utilize ATM's em lugares isolados, escuros. Tente sempre levantar dinheiro onde há gente, segurança, luz.

- Não marque encontros com ninguém em lugares pouco iluminados, isolados. Não espere por ninguém num desses lugares. Dentro ou fora do carro. Ligue e escolha outro local.

- Não pense que está protegido dentro de um carro que não vale um chavo, o carjacking acontece em carros de baixa e alta cilindrada, num "charuto velho" apenas está a salvo de alguém o querer comprar.

- Se for vítima deste acto criminoso, não desespere e não resista. NÃO resista.

Tatuagens de LSD

"Relativamente ao aviso que tem vindo a ser divulgado na Internet sobre tatuagens e selos com desenhos de heróis infantis e alegadamente impregnados de LSD, a Polícia Judiciária, através da Direcção Central de Investigação de Tráfico de Estupefacientes, informa: Compete legalmente à Polícia Judiciária a centralização, a actualização e o tratamento, a nível nacional, de toda a informação relativa ao tráfico de drogas ilícitas, recebendo, para isso, permanentemente, dados e notícias de todas as forças e serviços policiais nacionais e das suas congéneres estrangeiras. Assim, pode referir-se não existir qualquer registo em Portugal relativo aos "selos" e às "tatuagens" referenciadas e, da mesma forma, nada consta sobre eles nos demais países da Europa. (...) Face à lógica comercial, inerente a toda a actividade relacionada com o tráfico de droga, não é compreensível, por não ser minimamente rentável, a distribuição, gratuita e camuflada, de produtos psicotrópicos a crianças.A substância psicotrópica ora em causa, o L.S.D., não provocará, tanto quanto se sabe, dependência física e a eventualidade da dependência psíquica ou habituação leva algum tempo a verificar-se, exigindo um consumo continuado e regular da droga, o que é incompatível com o método ora denunciado.O preço desta droga é, ao nível do mercado ilícito, relativamente elevado, não se compreendendo, assim, a sua distribuição gratuita. (...) A Polícia Judiciária aconselha os eventuais interessados, e designadamente as famílias, a não se preocuparem excessivamente com esta situação nem a alarmar-se com a ameaça contida nas "difusões(...)"

Curiosidades

Se fechou o carro e deixou a chave lá dentro pegue no telemóvel e ligue para alguém que tenha outro comando do seu carro, depois mantenha o seu telemóvel próximo da porta do carro e a pessoa que tem o seu outro comando deve accioná-lo encostando-o ao telefone. O carro abre assim, à distância, via telemóvel.


Se a bateria do seu carro descarregou, saiba que todos os telemóveis têm uma reserva de carga na sua bateria.
Ao digitar *3370# automaticamente é activada a reserva dando até cerca de 50% de energia adicional. Quando voltar a recarregar o telemóvel automaticamente voltará a carregar esse suplemento de energia podendo ser utilizado outra vez.

Como desactivar um telemóvel roubado?
Primeiro tem de saber o número de série do telemóvel (IMEI), para o encontrar digite: *#06# e
aparecem no mostrador 15 dígitos. Este é o número de série do telefone.
Escreva-o e guarde-o num lugar seguro, contacte a sua operadora para cancelar ou anular o telefone, depois de descativado, mesmo que troquem de cartão não funcionará.

Alerta para Pais e Educadores

-O Computador não é o único nem o melhor amigo do seu filho;
-Os "amigos" on-line são, na realidade, completamente estranhos;
-Com o computador ligado à Internet podem-se praticar crimes em qualquer local do globo, bastando que haja do outro lado outro computador;
-Depois do encontro virtual segue-se o encontro físico (a título de exemplo, o recente assassinato das duas jovens em Inglaterra, foi precedido de conversação em Chat);
-Seria desejável que os seus filhos lhe comunicassem qualquer mensagem recebida de cariz insinuante, obscena, agressiva ou que sugira fins menos lícitos;
-Estabeleça limites horários na utilização da Internet; o uso excessivo da Internet no período da noite é indício e potenciador do problema;
-Garanta que os menores não divulguem on-line informação pessoal que as possam por em risco no mundo off-line;
-A Internet mal utilizada é espaço privilegiado para ofertas enganosas e aliciamento encoberto; lembre-os de que o bom e o fácil raramente andam juntos;
-Em caso de suspeita salvaguarde todos os elementos relativos à proveniência e conteúdo dos contactos;



Esclarece-se que a Polícia Judiciária, como legalmente lhe compete, está disponível em qualquer circunstância ou momento, para prevenir, investigar, acompanhar e encontrar o devido encaminhamento para situações deste tipo.






11.3.08

Comentários no Blogue

Não é minha intenção criar aqui um fórum, um mural de recados... Este blogue não é (ou não merece) ser debatido. De que vale ter coisas valiosas na vida como eu tenho o meu filho e não partilhar? "E dizê-lo assim, cantando, a toda a gente?" Basicamente é só isso oreinabarriga. Livro de exclamações há: oreinabarriga@gmail.com. Está no "meu perfil". Tenho resistido ao longo de 4 anos a publicar os mail's honrosos, os deliciosos, os simpáticos, os bem humorados, os muito bem escritos. Mais depressa publicava as criticas. Também as houve. Quando postei o meu voto favorável à nova Lei do Aborto, quando postei sobre a Lei do tabaco, por exemplo, ou recentemente quando postei os cães danados. Também recebi um e-mail ontem, salvo o erro ontem: "Lá Féria é Detestável!". Estava óptimo (embora não concorde). Obrigado a todos de igual modo, mas existem tantos Fóruns na net... o meu blogue tem um universo tão restrito de leitores, acreditem, quase se pode aplicar o termo: "Vozes de burro não chegam ao céu". Se pareço a voz que não dá a voz aos outros não é com essa intenção. Escrevo e acho que ninguém me vai ler (pelo menos mais do que uma vez) muito embora me pese a responsabilidade porque há sempre alguém... Perdoem-me. As dedicatórias guardo-as num lugar seguro, estejam descansados, as criticas são os meus textos seguintes porque a seguir a uma critica não fico igual (para além do mais, dão com frequência belos Post's).

9.3.08

Teatro Infantil



"A Estrela" é mais um mágico espectáculo infanto-juvenil de Filipe La Féria, depois de“A Menina do Mar” de Sophia Mello Breyner, "Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll e “O Principezinho” de Antoine Saint-Exupéry (esta última o Miguel também viu) a Estrela é baseada no conto de Vergílio Ferreira com o mesmo nome.
É um dos mais belos contos da Literatura Portuguesa e um dos mais belos teatros que assisti. Os figurinos são fantásticos, as personagens: a cigana vendedeira, o Governo, o artesão velho, muito velho, ... são todos personagens populares, tradicionais Portuguesas, a peça começa com belos cantares Alentejanos, depois, Pedro a personagem principal, um menino de 7 anos que sonha alcançar uma estrela, vence o sono (personagem diabólico e engraçado ao mesmo tempo que oferece sonhos de todas as cores) e sobe ao alto da Igreja com a ajuda do cata vento para roubar a Estrela. Pedro teve que enfrentar várias sombras das quais não teve medo, o Miguel também não, apesar das silhuetas serem horríveis e pretas e ameaçarem o Pedro durante o seu intento. Pedro conseguiu roubar a Estrela mas foi descoberto, pelo velho muito velho, artesão da Aldeia e apesar de ser mais importante para a população o roubo da mula, das galinhas, (pelo Governo) do que o desaparecimento de uma estrela, ... Vão ver. Os pequeninosinhos e os maiorzinhos. Vergílio Ferreira é para todos assim como os sonhos, o Teatro e Lá Féria que continua a ser o único. Incansável. Inesgotável. Um obrigado muito grande, de braços abertos como faria a Amália por fazer teatro para todos, sem excepção, teatro popular, de qualidade, de prestígio internacional, obrigada pela perseverança e por dedicar toda a vida, toda a veia, todo o génio a Portugal e ao Teatro.

A reacção do meu filho foi a melhor, apesar de ser hora da sesta não adormeceu, venceu o sono como o Pedro. Ás tantas, fixado numa roda de mulheres (personagens) que faziam muito barulho e cantavam, esticou os dois braços para a frente e disse-me assim:

- Olha pá quilo! Olha pá quilo mãe! Olha pá quela pavoíce!

Quando o palco ficava escuro ele comentava, sem medo:

- Óia, agóa ficou tudo escuío, Miguel não vê nada!


- Gostaste da peça filho?

- Xim.

- De quem gostas-te mais filho?

- Do Pedro. Olha ali a cama do Pedro, mãe!



Horário do espectáculo: (para escolas mediante reserva prévia)2ª a 6ª às 11h00 e 14h00 - Sábados, Domingos às 15h00 (para todo o público)
Horário da Bilheteira: De 3ª a Sábado entre as 13h30 e as 21h30 Domingo e 2ª entre as 13h30 e as 17h00 Preços: 1ª plateia: 12.50€ 2ª plateia: 10.00€1ª tribuna: 12.50€ 2ª tribuna: 10.00€ 1º balcão: 07.50€ 2º balcão: 07.50€


A estrela em livro:

8.3.08

O Trabalho do Pai!

O Miguel foi hoje conhecer a Pedreira onde trabalha o Pai. Chama-se Moita da Ladra, é propriedade da Empresa Alves Ribeiro S.A., dedica-se à extracção, exploração e comercialização de basalto. A paisagem é deslumbrante, do alto da sua magnitude, de encostas íngremes, consumidas pelo roubo autorizado da pedra preta (apesar de qualificada como área protejida), por meio de explosão, contempla-se o Tejo. Próximo de Vialonga, é visível da auto-estrada A1 nas portagens de Alverca.
Tudo é grande, parece que estamos em cima do mundo, guardados pelas muralhas. Debaixo dos nossos pés, no fim da terra, estão enxadas e utensílios do neolítico. Antes de nós ocuparmos o trabalho do pai, antes da Alves Ribeiro ocupar a Moita da Ladra, ocuparam a pedreira, culturas do Neolítico Antigo!
As máquinas são para o Miguel o Rolão do Bob (cilindro), o alturas (a pá) a Beta (Betoneira) com a diferença que estas, as que vimos na Pedreira do pai são comensuradamente maiores que as miniaturas de brincar, nestas pode-se entrar lá dentro e tudo, o Miguel era o Motoísta! São ainda maiores que as escavadoras e a pá que o Miguel já viu a trabalhar no estádio da Luz.
- O que fazê o Sinhô Filipe?
- O Senhor Filipe é o Guarda filho. É o Guarda da Pedreira.
E o resto foram exclamações:
- É pá!

Dia da mulher

Dia 8 de Março foi dia da mulher. A Junta de Freguesia da Pontinha ofereceu uma flor às mulheres. A da Amadora teve ideia melhor. Eu gosto de receber flores, aceito-as com um sorriso, cheiro-as levemente e agradeço. mas a Junta de Freguesia da Amadora teve ideia melhor.
" Não arranques flores para guardá-las, continua caminhando e as flores alegrarão o teu caminho." - Frase atribuída a Tagore.
Prefiro que me ofereçam uma planta, vem com a terra, pode viver. A flor que me deram está mutilada, tem um laço colorido no pé, não bebe água, nem vê o sol, murcha e morre à minha frente.
A Junta de Freguesia da Amadora, com o apoio do Horto do Campo Grande e do C. C. Alegro em Alfragide, ofereceu uma caixinha com uma semente lá dentro às mulheres pelo seu dia. Na caixinha não diz que semente é aquela, a que flor dará origem, diz: "No seu dia, plante e depois sorria."
É certamente o que farei quando romper da terra um pé de flor. Sorrir. Quando me oferecem uma flor, também sorrio, cheiro levemente, agradeço e sorrio, mas este sorriso que prevejo não é de educação, nem de gratidão, é um sorriso de alívio. As flores continuarão a alegrar o meu caminho e não depositaram nas minhas mãos uma florzinha condenada à morte que eu não posso aliviar.

7.3.08

Devia haver em CD

Esta é uma peça que devia haver em CD para eu ouvir com os meus head phones toda a vez que me apetecesse. Ou então em DVD para eu tomar uma personagem como se tomam os antibióticos, todos os dias a horas até às melhoras.



Ler o Livro do desassossego de Bernardo Soares/ Fernando Pessoa - Editora Assírio & Alvim (de preferência), não é a mesma coisa, ler via net também não http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=24204 mas se quizerem tentar...

Fernando Pessoa está lá, o Carlos Paulo é que não! ... Está na Comuna.



O Palestrante

"Conselhos às mal-casadas

(As mal-casadas são todas as mulheres casadas e algumas solteiras.)

Livrai-vos sobretudo de cultivar os sentimentos humanitários. O humanitarismo é uma grosseria. Escrevo a frio, raciocinadamente, pensando em vosso bem-estar, pobres mal-casadas.
A arte toda, toda a libertação, está em submeter o espírito o menos possível, deixando ao corpo, que se submeta à vontade.
Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio. Ser esposa e mãe corporeamente virginal e dedicada, e ter, porém, contactos carnais inexplicáveis com todos os homens da vizinhança, desde os merceeiros até aos - eis o que maior sabor tem a quem realmente quer gozar e alargar a sua individualidade, sem descer ao método da criada de servir, que, por ser também delas, é baixo, nem cair na honestidade rigorosa da mulher profundamente estúpida, que é decerto filha do interesse.
Segundo a vossa superioridade, almas femininas que me ledes, sabereis compreender o que escrevo. Todo o prazer é do cérebro, todos os crimes, que se dão, é só em sonhos que se cometem! Lembro-me de um crime belo, real. Não o houve nunca. São belos os que nós não conhecemos. Bórgia cometeu belos crimes? Acreditai-me que não cometeu. Quem os cometeu belíssimos, profusos, frutuosos, foi o nosso sonho de Bórgia, foi a ideia de Bórgia que há em nós. Tenho a certeza que o César Bórgia que existiu era um banal e um estúpido, tinha de o ser porque existir é sempre estúpido e banal.
Dou-vos estes conselhos desinteressadamente, aplicando o meu método a um caso que me não interessa. Pessoalmente, os meus sonhos são de império e glória; não são sensuais de modo algum. Mas quero ser-vos útil, ainda que mais não seja, só para me arreliar, porque detesto o útil. Sou altruísta a meu modo.


Conselhos às mal-casadas

Proponho-me ensinar-lhes como trair o seu marido em imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor.
Concedo que a inferioridade feminina precisa de macho. Acho que, aomenos, se deve limitar a um macho só, fazendo dele, se disso precisar, centro de um círculo, de raio crescente, de machos imaginados.
A melhor ocasião para fazer isso é nos dias que antecedem os da menstruação.
Assim:
Imaginam o seu marido mais branco de corpo. Se imaginam bem, senti-lo-ão mais branco sobre si.
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo, e mudem com a imaginação o homem num olhar - lembrem quem lhes estiver em cima da alma.
A essência do prazer é o desdobramento. Abram a porta da janela ao Felino em vós.
Como tracasse o marido. Importa que o marido às vezes se zangue.
O essencial é começar a sentir a atracção pelas coisas que repugnam, não perdendo a disciplina exterior.
A maior indisciplina interior junta à máxima disciplina exterior compõe a perfeita sensualidade. Cada gesto que realiza um sonho ou um desejo, irrealiza-o realmente.
A substituição não é tão difícil como julgam. Chamo substituição à prática que consiste em imaginar-se a gozar com um homem A quando se está copulando com um homem B.


[Conselhos às mal-casadas]

Minhas queridas discípulas, desejo-lhes, com um fiel cumprimento dos meus conselhos, inúmeras e desdobradas volúpias com o, não nos actos do, animal macho a que a Igreja ou o Estado as tiver atado pelo ventre e pelo apelido.
É fincando os pés no solo que a ave desprende o voo. Que esta imagem, minhas filhas, vos seja a perpétua lembrança do único mandamento espiritual.
Ser uma cocotte, cheia de todos os modos de vícios, sem trair o marido, nem sequer com um olhar - a volúpia disto, se souberdes consegui-lo.
Ser cocotte para dentro, trair o marido para dentro, está-lo traindo nos abraços que lhe dais, não ser para ele o sentido do beijo que lhe dais - oh mulheres superiores, ó minhas misteriosas Cerebrais - a volúpia é isso.
Por que não aconselho eu isto aos homens também? Porque o Homem é outra espécie de ente. Se é inferior, recomendo-lhe que use de quantas mulheres puder: faça isso e sirva-se do meu desprezo quando. E o homem superior não tem necessidade de nenhuma mulher. Não precisa de posse sexual para a sua volúpia. Ora a mulher, mesmo superior, não aceita isto: a mulher é essencialmente sexual."

Homem/ Mulher vendo-se ao espelho

"Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas a nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria...
Possuímos a alma? Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas’.
Que possuímos? que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que possui dele? Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer. A posse de um corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celulada e gordurosa; o beijo não toca na beleza da boca, mas na carne húmida dos lábios perecíveis e mucosas; a própria cópula é um contacto apenas, um contacto esfregado e próximo, mas não uma penetração real, sequer de um corpo por outro corpo... Que possuímos nós? que possuímos?
As nossas sensações, ao menos? Ao menos o amor é um meio de nos possuirmos, a nós, nas nossas sensações? é, ao menos, um modo de sonharmos nitidamente, e mais gloriosamente portanto, o sonho de existirmos? e, ao menos, desaparecida a sensação, fica a memória dela connosco sempre, e assim, realmente possuímos...
Desenganemos até disto. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não fales. A memória, afinal, é a sensação do passado... E toda a sensação é uma ilusão."

A criança orfã

"Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale mais para mim um adjectivo que um pranto real da alma. O meu mestre Vieira.
Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas das quentes dos que não têm nem tiveram mãe; e meus olhos que ardem dessas lágrimas mortas ardem dentro do meu coração.
Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.
Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?
Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num jazigo – essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que me pertencesse.
Disseram-me, mais tarde, que minha mãe era bonita, e dizem que, quando mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de imaginar.
Meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o conheci. Não sei ainda por que é que vivia longe. Nunca me importei de o saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma grande seriedade às primeiras refeições depois de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de troco, entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez, sem eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal.


O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho.
Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas. Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafisico do mistério das coisas.
Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana bóiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento - tudo que não fosse a vida... E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!"

O Revoltado

"Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, com bens na Inglaterra, ou Suíça, e o chefe socialista da aldeia - não há diferença de qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre- escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho."

O guarda-livros

"Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.
Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo - tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte.
Aliás, se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos Douradores, a que outra coisa me chegaria - porque a outra me haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria - porque de outro me haveria de vestir?
Todos temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível. Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável, de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes génios e a muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a imortalidade... Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstractos do mundo.
Considerando que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é próspera por negócios com todo o Estado: "você é explorado, Soares". Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.
Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.
E recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia, escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas.
Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora. E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."

O Mendigo

"Entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. Assim fui igual aos outros sem semelhança, irmão de todos sem ser família.Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das terras nunca falei, senão comigo, e das paisagens, vistas se sonhava, nunca lhes dei notícia. Meus passos eram como os deles nos soalhos e nas lajes, mas o meu coração estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo desterrado e estranho.Ninguém me conheceu sob a máscara da igualha, nem soube nunca que era máscara, porque ninguém sabia que neste mundo há mascarados. Ninguém supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaram-me sempre idêntico a mim.Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram a minha, viram-me passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca naquelas salas, quem vivo não tem mãos que os outros apertem, quem me conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem que nelas o veja, a não ser que ele mesmo seja todos os outros.Vivemos todos longínquos e anónimos; disfarçados, sofremos desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa, por um relâmpago sem limites; mas outros ainda é essa a dolorosa constância e quotidianidade da vida.Saber bem que quem somos não é connosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos, nem porventura alguém o quis - saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada sentimento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias sensações?Mas a máscara, que estive fitando inerte, que falava à esquina com um homem sem máscara nesta noite de fim de Carnaval, por fim estendeu a mão e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja esquina estava. A máscara - dominó sem graça - caminhou em frente, afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e alheia ao que eu estava pensando. Só então reparei que havia mais na rua que os candeeiros acesos, e, a turvar onde eles não estavam, um lugar vago, oculto, mudo, cheio de nada como a vida..."

Para quê?

Para quê uma alma tão grande e tudo se tudo e tanta alma não cabem dentro de mim?
(Pronto, venham lá os mais sete anos de desassossego...)


"Fernando Pessoa deixou com o Livro do Desassossego a mais lúcida herança que, alguma vez, nos foi legada. Por isso, a razão, porque eu quis partilhá-la convosco, agora, no limiar de um século novo, onde teimosamente insistimos em pôr todas as esperanças, esquecendo muitas vezes que o essencial é começar por nós mesmos. A esperança maior é a nossa própria mudança, para que possamos, depois, contagiar os outros."
Carlos Paulo

Adoro a rotina...

Os tolos olham para as estrelas e pensam que elas brilham para eles e a verdade é que as estrelas retribuem com um infinito desprezo, é outro exercício inútil. Eu admiro o carimbo. Eu sou capaz de contemplar o carimbo, pum, pum, pum, em cima das folhas, a rotina. Eu sou o guarda-livros do escritório da Rua dos Douradores, “E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte.
Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução”
.
O resto do Post era trabalho e apaguei. Aqui pode-se fumar, falar de trabalho é que não!

5.3.08

Mapa

A Professora de Geografia chama a Contínua do bloco a meio de uma aula:
- Ó minha querida este mapa ainda trás a União Soviética!
- A Sôtora desculpe, cabeça a minha, esse mapa era para a aula de história, espere um mementinho que eu já lhe trago um actualizado, sim?

E o que é a amizade?

Dois homens, gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital. Um deles podia sentar-se na cama durante uma hora, todas as tardes, para que os fluidos circulassem nos seus pulmões. A sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha de permanecer sempre deitado de costas. Os homens conversavam horas a fio sobre suas mulheres, famílias, suas casas, seus empregos, seus entretens, seus mundos estacionados lá fora...
Todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto todas as coisas que conseguia ver do lado de fora da janela. O homem da cama do lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu pobre estado era animado por toda a actividade e cor do mundo do lado de fora da janela. Essa janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes, chapinhavam na água enquanto as crianças brincavam com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre flores de todas as cores. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem e uma ténue vista da silhueta da cidade podia ser vislumbrada no horizonte. Enquanto um dos pacientes descrevia isto tudo com extraordinário pormenor, o outro fechava os seus olhos e imaginava as pitorescas cenas. Um dia, o homem perto da janela retratou com tal pormenor um desfile que ia a passar, que o outro até conseguia ver e ouvir a banda a tocar...
Dias e semanas passaram. Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto com a água para os seus banhos e encontrou sem vida, o homem perto da janela. Tinha falecido calmamente enquanto dormia. Com tristeza a enfermeira e chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo. Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira disse que sim e procedeu à troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a Enfermeira deixou o quarto. Lentamente, cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiou-se no cotovelo, para poder contemplar o mundo lá fora. Fez um grande esforço e lentamente olhou para o lado de fora da janela que dava afinal, para uma grande parede de tijolo! Quando a enfermeira entrou no quarto, o homem perguntou -lhe porque é que o seu falecido companheiro de quarto lhe tinha descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela. A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede de tijolo...
Recebida via e-mail, adaptada por Carmina Burana, autor desconhecido

4.3.08

Cães Danados


Se perguntarem à minha mãe se eu sou capaz de morder alguém, ela responde:
- Eu acho que não.
Eu não mordo desde 1977 quando a minha mãe foi chamada à escola porque eu tinha dado uma dentada num colega de carteira. Na testa. Dei-lhe uma dentada na testa. Por que a ter sido numa perna ou numa orelha a Senhora Professora D. Maria do Pilar nem se tinha dado ao trabalho de mandar chamar a minha mãe.
Se perguntarem à minha mãe se eu mordo ela responde:
- Ah, ela referenciada na Lei como raça potencialmente perigosa não está, apesar do pequeno incidente por alturas da primária.
É que eu era da qualidade, quando muito, Caniche, o meu porte não chegaria para assustar um gato maricas e a um caniche que lhe dá para arreganhar o dente ninguém faz caso e se o caniche morder alguém, leva um pontapé e fica logo o assunto arrumado. Ora, para dar um pontapé a um rottweiler é preciso pensar duas vezes, uma pessoa habilita-se a ficar toda esfarrapada, ou até mesmo sem um bocado.
Diz a Lei que o proprietário de um animal potencialmente perigoso tem de ser maior de idade e deve entregar na junta de freguesia da sua área de residência um atestado de capacidade física e psíquica e registo de criminal limpo. Era bem feito se as leis se cumprissem. Estávamos safos e andávamos mais sossegados. Mas até podem colocar um chip em cada cão de fila brasileiro, dogue argentino, pit bull terrier, rottweiler, staffordshire terrier americano, staffordshire bull terrier e tosa inu que eu continuo a andar sobressaltada e o meu coração dispara, qualquer dia rebenta pelas costuras, quando vejo umas destas raças de cães a piscar-me o olho, pior, a piscar o olho ao meu pequeno filho.
Se há uma Lei que proíbe as pessoas de fumarem, se há uma Lei que proíbe as pessoas de ter como animal de estimação um Leão, um Leopardo, uma Anaconda, um Crocodilo, se há uma Lei que proíbe as pessoas de guardarem em casa uma granada (recordação da guerra de Angola), porque é que não há uma Lei que proíba as pessoas de terem animais de estimação rottweileres, pit bulles...?
O que leva tantas pessoas a gostarem destes animais? A gostarem de exibir estes cães danados? Serão pessoas perturbadas? Inseguras? Não serão potenciais criminosos? Possuidores de arma perigosa? Usarão estes animais para assaltar? Intimidar? Mostrarem quem é que manda aqui no bairro? Quem é? É o Chicco Boneco desde que adquiriu este maravilhoso exemplar, olhem para estas mandíbulas hein? No mínimo são exibicionistas. Que os bons donos fazem os cães bons e os maus donos os maus, também não me convence. Os bons pais já geraram filhos indignos e visse versa. Ninguém sabe. Ninguém pode garantir nada. As testemunhas contam. Também podemos sofrer um ataque de um Serra da Estrela, pois podemos e ficar mal, sermos mordidos por um gato e morrermos, acredito, mas a probabilidade é certamente a mesma que eu voltar a morder alguém. E não venham colmatar o terror que sinto destes animais quando se aproximam do meu pequeno filho com frases estúpidas como esta:
-Ele não faz mal.
-E se eu amanhã passar à sua porta (isto sou eu a falar, suponhamos, com o autor da frase estúpida) com o meu crocodilo sem trela e sem açaime?
- Ah, isso já é diferente! (isto era a pessoa a tentar estabelecer uma espécie de diálogo)
- Ai é diferente? Não sei porquê. O meu crocodilo também não faz mal a ninguém e gosta de crianças. Toda a vida gostou de crianças, é um crocodilo muito meigo, já o tenho desde pequenino. Já almoçou, esteja descançado e é muito bem tratado, ah, e não o treinamos para lutar.
Gostava de saber se ficava tranquilo. Ou até se voltava a circular à minha porta.
O que acontece é que os animais (tal como nós, tal como eu na primária, tão boa pequena, tão sossegada e de repente mordi um colega de carteira), que não somos treinados para lutar, que tomamos a nossa ração diária e não temos fome, que se não nos chatearem a molécula não mostramos o nosso lado irracional, a nossa agressividade, o picantropo que há em nós, a navalha, a caçadeira, mas isto é só até um dia. É só até um dia. Não me venham com conversas. Garantias. De boca. Não vos conheço de lado nenhum. As imagens que vejo, as notícias dos jornais que leio, os relatos de pessoas que sofreram ataques desses cães, ataques violentos, impressionantes, com consequências horríveis, que morreram ou ficaram marcadas para sempre, já para não falar no trauma, chegam para que não compreenda como continua a haver pessoas portadoras destes animais, mesmo que ao abrigo da Lei. Os vizinhos não são sempre os melhores vizinhos até esfaquearem a mulher e os filhos? O rapaz não era um bom rapaz, um filho exemplar até pegar numa caçadeira e começar a disparar no café em todas as direcções? O cão também não era um bom cão, meiguinho e tudo até ao dia em que comeu a cabeça de uma menina e foi abatido?
NÃO compreendo.

"A minha mãe levou a Eva ao colo até à viatura, a pouco mais de 20 metros da casa e colocou-a no chão para ajeitar a cadeirinha. A miúda começou a chorar e foi nessa altura que o cão se aproximou dela, cheirou-a e atacou-a subitamente", relatou o tio da Eva, sublinhando que "foi tudo horrível, um verdadeiro filme de terror, com a minha mãe a tentar desesperadamente afastar o Apolo da menina, deitando-se por cima dela para a proteger". André estava em casa e assim que ouviu os gritos correu imediatamente em direcção ao carro, tendo conseguido afastar o cão, o qual, "repentinamente, ficou dócil como sempre foi. Não sei o que terá acontecido", relatou, argumentando que "o comportamento do animal pode ter a ver com o facto de ele saber que é preso sempre que a minha sobrinha sai à rua". In Diário de Notícias 15 de Fevereiro de 2008


Estas são raças de cães perigosos. E são assim consideradas pela Lei Portuguesa, incluindo os cruzamentos de primeira geração destas, os cruzamentos destas entre si ou cruzamentos destas com outras raças.

1. Rotweiller
2. Staffordshire terrier americano
3. Pit bull terrier
4. Dogue argentino
5. Tosa inu Japonês
6. Cão de fila brasileiro
7. Staffordshire bull terrier

Não há problema

- Miguel, tu espalhas-te todos os brinquedos filho!
- Não há publeeeeema. Ó mãe, não há publeeeeeema.

- Anda lavar a dentuça, vá.
- Não é bizizo.