"(...) Atarax pertence ao grupo farmacoterapêutico dos
ansiolticos, sedativos e hipnóticos e ao grupo farmacoterapêutico dos
anti-histamínicos sedativos.
O Atarax está indicado no tratamento
sintomático da ansiedade, no tratamento sintomático do prurido (...)"
oreinabarriga
este blogue está protegido pelos direitos de autor © todos os direitos reservados ao autor designado como carmina burana. a cópia não autorizada de conteúdos de propriedade intelectual e criativa protegidos pelos direitos de autor é ilícita e pode fazê-lo incorrer a si em processos civis e criminais ao abrigo da lei 16/2008 de 1 de abril.
Mostrar mensagens com a etiqueta Closed. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Closed. Mostrar todas as mensagens
11.7.10
Atarax
Para além de não produzir o efeito sedativo desejado
provoca o efeito contrário (revolução, ansiedade). Só tomou nos dois primeiros dias, o frasco foi posto de parte, está guardado quase intacto no armário dos medicamentos, não serviu para nada.
Já ninguém aguenta o speed do Miguel (apesar de entre todos nos termos rendido e estar a chegar mais um reforço esta semana: a avó Dilia), sobretudo à noite quando já estamos de rastos e o Miguel constrói pistas de carrinhos e construções de legos e pede para ver filmes e para ir ao computador entre papinhas e copos de água, entre a 1 da manhã e 3 da tarde! que é quando finalmente o Miguel desiste de resistir e adormece durante o tempo que dá para... tomar um banho? fumar um cigarro? actualizar o blogue? sentir que é o mesmo tempo que se leva parado num semáforo fechado?
Estas borbulhas são doidas e estão a dar comigo em doida!
Preciso urgentemente que o meu filho volte a ser quem era e adormeça calmamente antes da meia noite a meio da segunda história...
31.12.09
Assim muito rapidamente
há países onde se diz amo-te
Je t' aime AlexEm Português isto é um quebra-cabeças.
Je t' aime Marie
I love you my dear
Há países como a Rússia onde um beijo é a duplicar ou a triplicar e os homens também se beijam, na França um beijo são três beijos, em Portugal os homens não se beijam, há uma moda que parece bem um só beijo e há quem só dê a cara e não retribua sequer o beijo.
A-mo-te.
É fácil.
Amo (vos!)
Soa tão bem.
Pensem nisso.
Bom Ano!
18.6.09
Grata às dedicatórias
Parte do post anterior são as pessoas que "tenho" na caixa de e-mail do blogue (O livro de exclamações). Se me pedem para escrever, acredito que gostem de "me" ler (e depois voltam a ler e isso não é só simpatia), mas aquilo em que eu acredito mesmo, é que quando não gostam nada daquilo que escrevi, me perdoam.
Agradecer isso, é pouco.
Continuo a invejar bastante quem tem o dom da escrita, o talento, são esses, a par com os meus olhos e sentidos que tudo absorvem, que me inspiram para continuar a ter um blogue, e o meu filho, que é a parte nuclear disto tudo, é onde tudo começa de dentro para fora, é onde tudo acaba, se um dia lerem isto de fora para dentro.
Não tenho tempo
Tempo para escrever. Para me livrar disto: andar cheia de coisas nas veias (da caneta), coisas sérias, o que o meu filho me diz, a aula de música que fui assistir, o jacarandá da Rua da Voz do Operário (texto inacabado, um dia ainda arde), o que ando a ler, quem passa por mim e deixa uma data de dedadas indeléveis...
Aos textos que ainda não escrevi (espero que a tinta não seque nas veias), a quem ainda não agradeci, ou perdoei, ou respondi, ou esqueci (com tempo vai), aos aniversários que não me lembrei, aos tempos (compassos) onde não entrei (ou entrei fora de tempo), à minha vez de brincar contigo filho, de te fazer uma história. Assim que tiver tempo, levanto-me da cama de manhã com mais força e de uma só vez. A cabeça parará de doer (e as contraturas), a tinta (das veias) à temperatura certa há de fluir (a correr). Formar-se-ão as palavras de que preciso e a linha do horizonte... Passo dias sem ver a linha do horizonte. Semanas? (os oceanos têm a linha do horizonte perfeita) se ao menos a orbe, a gente, o trabalho e as caras (de parvo, de sério, de choro, de riso, de espanto, dos outros, e as que não me dizem nada), não estivesse tudo sempre tão perto da vista, entenda-se a orbe e todas aquelas coisas: os semáforos, para onde olhamos anos da nossa vida não contabilizados (quase sempre na linha da frente), entenda-se o prédio da frente (não a última janela, apenas a janela que fica na nossa direção), o ecran do computador, as folhas dos livros, o espelho da casa de banho... se o mundo não estivesse sempre tão perto da vista havia mais céu e eu reparava que quando não chove o teto do mundo é uma imensa clareira (e não está suja, visivelmente suja como o chão que pisamos e aquilo que fica a um palmo do nariz). Preciso de tempo (o horizonte está lá), descansar os olhos, respirar fundo (passo dias, semanas? sem respirar fundo, com tempo) ou da forma que me apetecer, ou não respirar. Passo dias no automático. Bem sei que a linha do horizonte é uma linha imaginária, mas interessa-me mais a parte que diz que a linha do horizonte é onde se localiza o ponto de fuga.
Quando tiver tempo, fujo.
Quando tiver tempo escrevo (é a mesma coisa), coisas a sério (daquelas a brincar a brincar). Quando tiver tempo a linha do horizonte voltará a fazer parte do meu infinito.
"Time heals all wounds. All any of us can wants, is more time.
Time to stand up. Time to grow up. Time to let go…
Time."
In Time Has Come Today (Grey's anatomy)
17.4.09
8.4.09
O melhorzinho (ou o piorzinho) de Carmina Burana, ou uma espécie de antologia
Ando a fazer isto (uma espécie de antologia de escritos meus) para os que gostam de vir aqui, de mim ou daquilo que escrevo (e para os que não gostam também que é mais uma maneira de os chatear). Ando a fazer isto para os que volta e não volta me perguntam por um texto que gostavam de revisitar mas não se lembram do titulo e já não conseguem lá chegar, descrevem-no mas nem eu já sou capaz de o encontrar porque não sei o que escrevi para trás de antes d’ ontem (ou não me lembro), para aqueles que me pediram para por um motor de busca no blogue e eu pus uma vez e desisti 1 mês depois porque um acento a mais ou uma simples letra fora do sítio fazia logo disparar uma mensagem irritante: "Not Found! You're looking for something which just isn't here!", de modo que comecei a reunir uma quantidade de escritos meus (e ainda não acabei, porque catá-los é uma seca, não sei como é que consegui reunir tanta cangalhada no blogue) desde 2004 (para trás de 2004 nem mexo porque para além de não me lembrar, já nem devem ser meus com certeza) e estou a fazer uma espécie de antologia sem qualquer ordem cronológica, muito menos lógica, nem sequer separei os textos patetas daqueles que são completamente patetas, ou seja, vão lendo os que puderem, não desanimem porque a seguir a um texto com ponta, certamente virá um sem ponta por onde se lhe pegue.
Estão todos a Bombordo (o lado esquerdo do blogue quando olhamos para a frente) por baixo dos (per) seguidores e do subscrever.
Estão todos a Bombordo (o lado esquerdo do blogue quando olhamos para a frente) por baixo dos (per) seguidores e do subscrever.
25.3.09
Ganhar o dia
Hoje já ganhei o dia. A menina de 4 anos com parelesia cerebral que frequenta a escolinha do meu filho veio ao meu colo pela primeira vez e deu-me um beijo (grande, cheio de tempo) e os pequenos milagres sucedem-se uns atrás dos outros dia após dia, para além do beijo (hoje já ganhei o dia!) a H. sabe dizer que eu, sou a mamã do Miguel.
A vida está cheia de coisas boas. Esta, que trouxe hoje comigo e há-de andar comigo, já ninguém me a tira.
15.3.09
"Se tu viesses ver-me..."
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,..
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
Florbela Espanca "se tu viesses ver-me"In Charneca em Flor
9.12.08
Parabéns mãezinha
A minha mãe faz anos hoje. 73. A minha mãe é a avozinha Ana do Miguel. A minha mãe é tão importante na minha vida, nas nossas vidas... representa a força e também o nosso colo, é a nossa fortaleza. Nós somos uma árvore e ela é o tronco dessa árvore. Nunca se cansa. A minha mãe nunca se cansa. Ontem foi feriado e eu podia ter dormido até ao meio-dia, o Ricardo e o nosso menino tinham ido para a Sertã e a minha mãe fez o favor de cá vir a casa ainda não eram 10 da manhã para me entregar uns pratos e umas travessas que tinha lá em casa e eu que não durmo até ao meio-dia desde que o meu filho nasceu e também ainda não foi desta porque a minha mãe tinha lá uns pratos e umas travessas... coisas de enxoval, coisas de mãe! e quando me tocou à campainha ainda não eram 10 da manhã só me apeteceu... bom, adiante, este post é para dizer que amo a minha mãe e podes acordar-me de dia, de noite, podes trazer os pratos que tenhas lá em casa à hora que te der na veneta, tudo o que faço por ti, até acordar miseravelmente a um feriado de manhã por causa dos pratos que ainda por cima são uma coleção medonha de pratos, não representa nenhum sacrifício, é por amor mãe.
5.12.08
Feliz natal ou, o post herege
Vêm aí:
1. os ésseémeésses de boas-festas
2. as músicas ambiente de natal,
3. os pinheirinhos verdadeiros,
(os pinheirinhos verdadeiros no lixo, que há dem vir depois),
4. as fotos com o senhor vestido de pai natal
5. os pais natal de plástico que trepam pelas paredes dos prédios
6. os peditórios para a unicef, para a caritas, para os bombeiros, para a liga portuguesa contra o cancro, para a ceia de natal dos sem-abrigo, para a associação dos pintores com a boca e os pés, para as associações que pedem dinheiro, livros, brinquedos e roupas para as crianças, para as cremesses, para a AMI, para a missão sorriso do hipermercado continente e a popota do modelo, ...
7. a maior árvore de natal da europa
8. as rabanadas e o bacalhau com couves
9. o natal dos hospitais com todos aqueles maravilhosos artistas,
dez, onze, doze, ... vêm aí todas estas coisas detestáveis de rajada e eu sem ter onde me esconder porque é natal por todo o lado, todos os anos em Dezembro é natal por todo o lado. Este post (herege) é para dizer que sou sensível todo o ano e uma pedra no natal, para mais, iberno. Não vale a pena, não insistam, tenho o oreinabarriga@gmail.com cheio de caixas de esmola e não vou dar para nenhuma, não se dêem ao trabalho de comentar o quanto sou egoísta e venho para aqui dizer despautérios (até porque eu vou fechar o post aos comentários) e se apanho alguma exclamação no livro de exclamações deste blogue do género: É no natal que as pessoas se sentem mais sós, é no natal que têm mais frio, é no natal que precisam mais de ajuda ficam já a saber a resposta:
É o tanas.
Disse-me uma vez um sem-abrigo: "É o tanas. É solidão todo o ano e estarmos sós é um frio de cortar à faca." Disse-me ele, isto para aí em Junho.
Há quem nunca tenha contribuído para a sopa dos pobres nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em Abril nem em Agosto, nem no subsidio de férias, nem quando fazem anos, nem nunca tenha deixado um cobertor novo numa esquina ou na escada dum prédio e depois eram capazes de vir para aqui comentar que é no natal que as pessoas se sentem mais sós, é no natal que têm mais frio, é no natal que precisam mais de aju... Não é que eu tenha alguma coisa contra essas pessoas, não, se fossem todos como eu... eu já me pus a imaginar: e se fossem todos como eu? não bastava haverem crianças no mundo com fome o ano inteiro, pessoas a necessitarem de ajuda médica e vacinas o ano inteiro, pessoas com necessidades especiais o ano inteiro, sem-abrigo o ano inteiro como ainda haverem no natal.
Reservo-me apenas ao direito de ignorar durante 2 dias por ano as crianças que não têm brinquedos (quero lá saber que não tenham, dia 25 já têm e vão aparecer na televisão), que têm frio (quero lá saber), os sem abrigo que passam fome (passam fome todo o ano, quero lá saber, ao menos no natal sei que ceiam que se fartam e tiram a barriga de misérias). 2 dias (eu depois do natal volto a ser uma rapariga sensível). 2 dias para encher de presentes os meus amigos, para me encher de presentes, para encher de presentes a minha família toda (toda, toda não, quase toda, ficam de fora os que passam dificuldades) e para as pessoas boazinhas24e25dodoze e para as pessoas solidárias24e25dodoze e já agora, para todas as pessoas que se vestem de pai natal no natal e puseram pais natal de plástico a trepar pelas paredes do meu prédio, os meus votos de Feliz natal está bem?
12.11.08
A consulta dos 3 anos
No desenvolvimento cognitivo o meu filho está aprovado com distinção: memória, raciocínio, perceção, linguagem, imaginação, aprendizagem, ... Só não diz os érres! Os érres que ficam no meio das palavras mas sobretudo os que ficam no fim das palavras. Diz páa! em vez de pára! conduzie em vez de conduzir, acelaadoe em vez de acelerador, carrinho é carrinho, rua e ruca não há problema mas nem todos os érres saem cá para fora, na opinião da Dr.ª Manuela se aos 4 anos o Miguel continuar a esconder os érres vai ter aulinhas de terapia da fala. Eu achei bem. Os érres fazem falta (ainda hoje tentei que ele dissesse branco em vez de banco porque uma coisa é uma cor outra é um objecto, e, como não consegui, a cor da lã da ovelha é uma coisa que serve para a gente se sentar).
O meu filho tem aprendido novas palavras e faz isso rapidamente e aprende a dizê-las correctamente também em pouco tempo, os érres é que...
E eu tenho reparado que os desenhos animados recorrem muito aos érres, não se trata de uma coincidência, os criadores têm curiosamente em consideração que o "R" é uma letra difícil de soletrar para uma criança e vai daí chamaram Trú Trú a um burro, Ruca a um menino de 4 anos, o Paulo é um carteiro, etc., há muitos érres para as crianças aprenderem a dizer a brincar, o Miguel é que vê muitos desenhos animados mas ainda assim não é capaz.
O meu filho também está muito alto! (3 anos= 99cm= percentil 90).
O que não faz é cocó (só com bebé-gel). Podemos estar ali com ele duas horas, esgotar todas as cantigas e histórias encadernadas, prometer chupa-chupas, carrinhos, passeios e coisas do arco da velha, explicar que o cocó tem que sair, que faz mal à barriga, que tem que ir para os peixinhos, blá, blá, blá, que ele não faz, não faz e pronto. É mais preguiça que preso de intestinos, chega a encolher só porque quer brincar e não quer interromper a brincadeira, é psicológico, é isso tudo, que dá nos nervos, dá. A Dr.ª Manuela receitou um laxante suave indicado para crianças: "Xarope de maçãs rainetas". Compra-se na farmácia e é baratuxo (nem que fosse carissimo! é preciso é que as maçãs façam efeito). Vamos lá ver se o xarope é laxante (e por consequência, bom para os nervos).
O "galo" que o meu filho tem na testa resultado dele ter batido com a cabeça no chão da churrasqueira da avó Dília é que não é nenhum "galo", se fosse um galo já devia ter "baixado a crista" (pusemos tanto gelo) e eu devia ter feito um raio X à mais tempo e ando com esta mea culpa a arrastar... pode ser que amanhã consiga falar disso. Mas posso já adiantar a moral da história: Quando as crianças batem com a cabeça devem fazer um raio x (ou qualquer outro exame adequado), mesmo que fiquem bem depois de ter batido (sem vómitos, conscientes, prontos para a brincadeira, etc.), nem que seja só por "descargo de consciência", repito: nem que seja só por "descargo de consciência.
7.11.08
Quando chegares para jantar
Abro os braços, com os puxadores de ambas as portas do guarda-fatos dentro das minhas mãos.
Ficou apenas um sobretudo, preto, entre os restantes cabides nus, a oscilar num quadrado oco, pendurado como um enforcado, de mangas inertes, os bolsos vazios, a lapela degolada a emoldurar um quadro que já lá não está.
Lembro-me vagamente da tua relação com um vestido Azul. Azul? Sim, azul, azul cor de petróleo. Lembro-me de te ver pendurado no bengaleiro do teatro, do café da livraria Antunes, do hall da casa da Ema, éramos felizes, somos felizes, só não sabia que um dia iria abrir os braços, com os puxadores de ambas as portas do guarda-fatos e só existires tu, entre os restantes cabides nus, a oscilar num quadrado oco.
Ficou apenas um sobretudo, preto, entre os restantes cabides nus, a oscilar num quadrado oco, pendurado como um enforcado, de mangas inertes, os bolsos vazios, a lapela degolada a emoldurar um quadro que já lá não está.
Lembro-me vagamente da tua relação com um vestido Azul. Azul? Sim, azul, azul cor de petróleo. Lembro-me de te ver pendurado no bengaleiro do teatro, do café da livraria Antunes, do hall da casa da Ema, éramos felizes, somos felizes, só não sabia que um dia iria abrir os braços, com os puxadores de ambas as portas do guarda-fatos e só existires tu, entre os restantes cabides nus, a oscilar num quadrado oco.
O vestido azul fica-te a matar miúda. Enviar mensagem? Ok.
Espero que não estranhes, uma sms, nunca te mandei nenhuma. Nunca te disse que o sobretudo te caía como uma luva. Nem que o vestido azul te ficava a matar.
Eu pousava o casaco nos teus ombros e disfarçava. Fazia com que parecesse uma coisa natural, dizia: "- Veste-te que está a arrefecer." Eu reparava nos teus ombros frios, na tua pele arrepiada, na magreza sensual dos teus braços, mas disfarçava...
E se pensas que não via o nosso álbum de fotos, via. Sempre que tu não estavas eu via e o sobretudo está naquele retrato quando ganhaste o teu primeiro prémio literário e está no retrato onde o nosso filho andou pela primeira vez de carrocel, não se vê a tua cara e só se vê um bocado do sobretudo, mas dá para ver que é o sobretudo que eu nunca te disse, mas assenta-te como uma luva.
E se pensas que não via o nosso álbum de fotos, via. Sempre que tu não estavas eu via e o sobretudo está naquele retrato quando ganhaste o teu primeiro prémio literário e está no retrato onde o nosso filho andou pela primeira vez de carrocel, não se vê a tua cara e só se vê um bocado do sobretudo, mas dá para ver que é o sobretudo que eu nunca te disse, mas assenta-te como uma luva.
Ontem disseram-me que já estavas a viver noutra cidade, que eras feliz com aquele homem que sempre achei que não olhava para ti duas vezes.
Ontem disseram-me que estavas mais bonita. Sabes como é a vizinhança, gostam muito de falar da vida dos outros. Virei costas e vim para casa fazer-te o jantar.
Afundo os dedos nos bolsos do casaco, não encontro nada que te incrimine. Não sei dizer se alguma vez trouxe o sobretudo algo que te incriminasse, um bilhetinho, um convite, um poema, as pessoas falam, os amigos comentam, há a internet, mas sabes como são os outros, gostam muito de falar da vida alheia, não dou ouvidos. Éramos felizes, somos felizes. Ás vezes encontrava um talão da caixa do supermercado com o nome da operadora e a hora em que tinhas lá estado e isso chegava para mim.
Afundo os dedos nos bolsos do casaco, não encontro nada que te incrimine. Não sei dizer se alguma vez trouxe o sobretudo algo que te incriminasse, um bilhetinho, um convite, um poema, as pessoas falam, os amigos comentam, há a internet, mas sabes como são os outros, gostam muito de falar da vida alheia, não dou ouvidos. Éramos felizes, somos felizes. Ás vezes encontrava um talão da caixa do supermercado com o nome da operadora e a hora em que tinhas lá estado e isso chegava para mim.
Ouvi dizer que a semana passada tinhas ido visitar os teus pais, tu e o homem que eu achava que não olhava para ti duas vezes e não tira os olhos de ti (disseram-me que ele não tira os olhos de ti), sabes como é a vizinhança...
Só não sabia que um dia iria abrir as portas do guarda-fatos e só tu existires, e contemplar-te, e falar contigo, um sobretudo, pendurado como um enforcado, de mangas inertes, de bolsos vazios, ...
"- Ainda estás em tempo de combinar com um lindo vestido azul. Azul? Sim, azul. Azul cor de petróleo, vermelho, lilás, todas as cores ainda te ficam bem. Ainda estás em tempo de fazer inveja em qualquer bengaleiro. O quê? Velhos são o quê? Ora, não dês ouvidos a quem fala assim! "
Fecho as portas do guarda-fatos e os braços. Estás atrasada. É o trânsito. Deve ser o trânsito.
Pego no guarda-chuva e vou para a rua esperar-te. Oito, oito e meia, nove, dez, é melhor voltar para casa, ligar a televisão no noticiário, deve ter havido algum acidente, deves ter o telemóvel desligado, as pessoas passam por mim e falam, dizem que ele não tira os olhos de ti, o homem que eu achava que não olhava para ti duas vezes, disseram-me que ele não tira os olhos de ti, não ligo, onze, onze e meia, entro em casa com a ultima chuva nos olhos, volto a remexer nos talheres, substituo os guardanapos, nunca devíamos ter vindo morar para aqui, tem muito trânsito e comemos sempre a comida fria. Abro os braços com as portas do guarda-fatos e espanto-me: todos os cabides estão vazios... Todos.
Fecho as portas do guarda-fatos e os braços. Estás atrasada. É o trânsito. Deve ser o trânsito.
Pego no guarda-chuva e vou para a rua esperar-te. Oito, oito e meia, nove, dez, é melhor voltar para casa, ligar a televisão no noticiário, deve ter havido algum acidente, deves ter o telemóvel desligado, as pessoas passam por mim e falam, dizem que ele não tira os olhos de ti, o homem que eu achava que não olhava para ti duas vezes, disseram-me que ele não tira os olhos de ti, não ligo, onze, onze e meia, entro em casa com a ultima chuva nos olhos, volto a remexer nos talheres, substituo os guardanapos, nunca devíamos ter vindo morar para aqui, tem muito trânsito e comemos sempre a comida fria. Abro os braços com as portas do guarda-fatos e espanto-me: todos os cabides estão vazios... Todos.
A comida está fria, vamos jantar fora? Enviar mensagem? Ok.
Éramos felizes, somos felizes, quando chegares para jantar (é o trânsito) seremos felizes porque já não uso roupa interior de outra cor, é tudo preto. Gostas de preto e tenho slips de cor preta. A roupa interior de homem preta, faz milagres.
Todos os cabides estão vazios. - Velhos? Os trapos? Sorrio vagamente.
Éramos felizes, somos felizes, quando chegares para jantar (é o trânsito) seremos felizes porque já não uso roupa interior de outra cor, é tudo preto. Gostas de preto e tenho slips de cor preta. A roupa interior de homem preta, faz milagres.
Todos os cabides estão vazios. - Velhos? Os trapos? Sorrio vagamente.
25.9.08
Vaga de comentadores
Tenho para aqui revistas e mais revistas cheias de colunas de comentadores. É comentários dos leitores, do director, dos colaboradores, dos convidados especiais e até há quem escreva crónicas que é uma maneira encapuçada de ser comentador e comentar.
Toda a gente manda bitaites.
Toda a gente manda bitaites.
Nada melhor que ficar em casa a um dia de semana (estava de férias, era um dia de semana quando me pus a escrever isto, depois gravei como rascunho não fosse eu um dia achar que já tinha publicado post's demais sobre o AMOR e pimba, espetava no blogue com este dos comentadores e ainda bem que gravei isto), nada melhor que ficar em casa, estava eu a dizer, a um dia de semana sem nada para fazer a não ser ler tablóides, assistir televisão e consultar a internet (e também comi dois torrões de açúcar amarelo), para tomar conhecimento das proporções desta nova vaga. Já houve uma geração de locutores, empresários de teatro, jornalistas, dramaturgos, políticos, jogadores de futebol, cantores líricos, actores, jogadores do cubo mágico, agora de comentadores nunca tinha visto uma coisa assim.
Quem começou com isto (aposto) foi o criminalista Moita Flores (aposto), depois a coisa foi ganhando a forma de uma avalanche e hoje em dia há comentadores a atropelarem-se por todo o lado, nos blogues, nos fóruns da internet, nos jornais, na televisão, na rádio, nas revistas, no prédio, no trabalho, na paragem do autocarro, no barbeiro, nas padarias (isso já havia antigamente que eu por acaso lembro-me da minha avó falar nisso) a atropelarem-se uns aos outros e atropelam-nos e a atropelarem as nossas ideias e sentimo-nos completamente invadidos, devassados por todos os lados, atropelados, pronto.
Depois mandam bitaites sobre tudo: politica, futebol, crime, celebridades, não celebridades, casos em segredo de justiça e há comentadores para todos os gostos: jornalistas, escritores, treinadores, astrólogos, cartomantes, apresentadores de tv, ex concorrentes do Big Brother, ex agentes da policia judiciária, criminalistas, ciclistas, trapezistas, estes dois últimos já sou eu a inventar mas deve haver, e como comentar é uma coisa compulsiva e doentia quanto mais se comenta mais se quer comentar, os astrólogos não se limitam a mandar bitaites sobre astrologia, nem os jornalistas sobre casos de reportagem, nem os escritores sobre livros, nem os criminalistas sobre casos de polícia nem os políticos sobre política, não, comentam sobre aquilo que não lhes diz respeito, mandam bitaites nas áreas uns dos outros e comentam-se até uns aos outros.
Depois mandam bitaites sobre tudo: politica, futebol, crime, celebridades, não celebridades, casos em segredo de justiça e há comentadores para todos os gostos: jornalistas, escritores, treinadores, astrólogos, cartomantes, apresentadores de tv, ex concorrentes do Big Brother, ex agentes da policia judiciária, criminalistas, ciclistas, trapezistas, estes dois últimos já sou eu a inventar mas deve haver, e como comentar é uma coisa compulsiva e doentia quanto mais se comenta mais se quer comentar, os astrólogos não se limitam a mandar bitaites sobre astrologia, nem os jornalistas sobre casos de reportagem, nem os escritores sobre livros, nem os criminalistas sobre casos de polícia nem os políticos sobre política, não, comentam sobre aquilo que não lhes diz respeito, mandam bitaites nas áreas uns dos outros e comentam-se até uns aos outros.
Não me lembro desde a vaga de vendedores de enciclopédias e mais tarde vendedores de aspiradores, ter havido vaga mais chata!
Agora vou mandar este monte de revistas para o lixo e não são permitidos comentários a este post ou não vá alguém pensar que aqui neste blogue também há com… comenta… comen…
disso.
Amor, a mais suportável de todas as dores
"O amor implica sofrimento, inevitavelmente, uma dor proporcional à intensidade com que se ama. há pessoas que sofrem mais outras menos uma dor igual. é uma questão de sensibilidade à dor. há pessoas mais intensas outras menos intensas num amor à mesma escala. passar por sofrer é inevitável em ambos os casos. é humano que tentemos não lhe dar muita confiança (ao amor). "
João Ayres no Post "Voltar a escrever" 8-09-2008
Amar é humano e implica “passar por sofrer”, ninguém quer sofrer, porque ninguém gosta, por isso dominamos os nossos sentimentos, que não é amar mas também não é padecer de cancro do coração. Eu sou boa amante, até porque todas as coisas que amo, menos uma e tirando os livros, não se levam para a cama. Não levar para a cama aquilo que se ama é amar generosamente e em absoluto. E eu sou generosa, intensa? Eu também não gosto de me auto flagelar, mas sofrer por amor não é mau e tem vantagens a considerar. De todas as coisas pelas quais já sofri, picadas de insectos, a morte de alguém querido, o medo, o parto, sofrer por amor é a mais suportável de todas e se for um sofrimento correspondido então, chega a ser uma dor agradável, simpática e encantadora.
Nós sofremos por amor e os olhos transpiram, um olhar transpirado é das coisas mais lascivas que conheço. Sofremos e a música (qualquer merdita de música) ganha uma sonoridade magnífica e a letra da música até foi escrita para nós, por acaso.
Sofremos e andamos na lua que é a aspiração milionária de muita gente, sofremos e perdemos o sono que é aquela coisa medonha, chata, que nos dá nas horas mais inapropriadas, que nos faz perder as melhores séries da televisão que dão depois da 1 da manha, que nos faz ter acidentes de viação, embater contra as portas, praguejar, não querer ir trabalhar... Sofremos e temos mais tempo para as coisas boas. E o olfacto? Apuradíssimo como se tivéssemos que farejar até encontrar o cheiro que nos faz lembrar. Sofremos e é a melhor altura para ir à perfumaria e acertar no frasco. Sofremos e ficamos fáceis que é meio caminho andado para encontrar um novo amor e nada melhor para curar um amor que outro, porque não há amor como o último. Sofremos e ficamos humanos que é a única coisa decente que nos distingue dos seres das outras espécies.
É portanto perdoável não querer amar, e uma grande parvoíce não querer amar porque inevitavelmente nos fará sofrer.
É portanto perdoável não querer amar, e uma grande parvoíce não querer amar porque inevitavelmente nos fará sofrer.
Carmina b. in "Voltar a escrever" 8-09-2008
11.9.08
"Não há públema, mãe!"
"Qualquer criança que se pinte com tinta de esferográfica se ri do acontecido.O Miguel ontem destapou uma e experimentou riscar a palma da mão, depois olhou para o rabisco de tinta azul (disse o pai), o lábio de baixo sobrepôs-se ao de cima e o queixinho começou a tremer, a tremer, deixou a caneta escorregar para o chão, com mágoa, como coisa malvada e desatou a correr para o meu colo (íamos caindo os dois no chão da casa de banho).
- O que foi filhinho? O que são esses olhos cheios de lágrimas? São por causa de um risco? Mostra à mãe.
E o Miguel mostrou o rabisco na palma da mão.
- Não chores filho, a mãe não ralha e a tinta sai com sabão, anda, vamos buscar a caneta que a mamã desse risco vai fazer um coração! Queres?
- Xim.
Apanhamos a caneta do chão, o pai fez também um desenho na palma da mão e a mãe, do rabisco do Miguel, fez um coração e abriu-se um sorrido descansado.
- É o coração da mãe?
- É filho, o coração da mãe está na palma da tua mão!
- Que bunito…
- Agora vamos lavar, vai ficar limpinho, vais ver!
Querem saber como sai a tinta de esferográfica da pele? A tinta de esferográfica da pele sai com beijinhos.
Tinta de esferográfica por Carmina Burana, em 22-04-2008
Desta vez a tinta não saiu. Nem com beijinhos, nem com um banho!
Mas o Miguel está mais crescido. Pintar é divertido, esfregar as mãos e os joelhos com espuma e os rabiscos azuis não sairem nem por nada também é divertido, o Miguel deu umas boas gargalhadas. E disse no fim, prontamente:
- Não há públema mãe!
Os 1ºs desenhos do meu filho
Esta sou eu (A mãe!), pus setinhas com legendas não vá alguém olhar e não perceber logo do que se trata. Para além do meu filho, com apenas 3 anos já revelar talento como retratista, revela também sentido de humor (estou com dois galos na cabeça!).
(Clique na imagem para ampliar)
10.9.08
40
Gosto do número quarenta. Também gosto do 41, 42, 43...
O problema é que o quarenta é um número impedido. É um número ocupado. Um 40 está invariavelmente, sempre ocupado, ou chama chama e ninguém atende, ou atende o gravador. Bem, às vezes damos com um 40 desimpedido, mas quando isso acontece ou foi troca de linhas ou enganamo-nos a marcar o número e vem de lá um quarenta sessenta ou um quarenta dezoito e temos forçosamente que desligar: "desculpe, foi engano, pensei que estava a ligar para um 40, 40 ou para um 40, 41, 42..."
Quarenta... é um número cheio de charme. O problema é que o 40 é um número impedido, ocupado, invariavelmente, sempre ocupado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








